:: Jornal Administrador Profissional - nº 208 - Outubro 2003

Telework: um dos eventos mais importantes do mundo teletrabalho no CRA-SP

O Telework, que visa incentivar pesquisas acadêmicas sobre o teletrabalho e promover a troca de experiência entre praticantes de todo mundo é realizado pela primeira vez na América Latina, no CRA-SP. Em 2004 será na Grécia

Pesquisadores de vários países, entre eles Japão, Inglaterra, Suécia, Holanda, Argentina e Brasil, estiveram reunidos no CRA-SP, de 24 a 27 de agosto, no "Telework 2003 - The 8th International Workshop and Business Conferences on Telework (8º Workshop Internacional e Conferências de Negócios sobre Teletrabalho).

Realizado pela primeira vez na América Latina, graças a uma parceria entre o CRA-SP e a Fundação Internacional de Teletrabalho (ITF), o Telework é considerado um dos mais importantes eventos acadêmicos sobre Teletrabalho e novas formas de trabalho em todo o mundo. A edição brasileira, cujo tema foi "E-Trabalho e o Desenvolvimento Sócio-Econômico", recebeu 54 papers (23 do Brasil), dos quais 36 foram apresentados.

O evento contou, ainda, com o "Fórum Latino-Americano de Teletrabalho (Flat)", que debateu em quatro painéis o gerenciamento do teletrabalhador, os programas desenvolvidos por organizações não-governamentais, as tecnologias aplicadas nos processos de inclusão social e digital e os rumos do teletrabalho na América Latina.

Na avaliação do professor Aluízio Macario Lima, mestre em Gerenciamento de Tecnologia de Informação e Comunicação e integrante do Comitê Organizador do Telework, um dos destaques do evento foi a apresentação da forma como o teletrabalho vem sendo desenvolvido no Japão (uma combinação de pesquisas, conferências, treinamento e troca de informação). "O modelo japonês serve de espelho para o Brasil, por contar com cinco ministérios em sua organização", enfatizou. No Japão, 6% da força de trabalho são de teletrabalhadores.

Na opinião de Macario Lima, a edição brasileira deu muita ênfase ao gerenciamento do teletrabalho e às formas de relacionamento dos teletrabalhadores, ("o que é muito importante", ressaltou), mas esqueceu, por exemplo, de abrir espaços para temas voltados aos portadores de necessidades especiais. "Há um entendimento de que o teletrabalho é uma ferramenta para criar oportunidades de trabalho, de sobrevivência e de inclusão", explicou.


Universidade

Sonia BoiarovOutro destaque foi a apresentação do Centro de Teletrabalho e Teleinformação (CTT), implantado há três anos pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (Argentina). Segundo a professora Sonia Boiarov, uma das fundadoras e diretora do CTT, ele nasceu da constatação de que era preciso criar opções para fazer frente ao alto índice de desemprego no meio estudantil (20% dos 17 mil alunos daquela faculdade estão sem trabalho e entre os que têm, 13% trabalham menos de três horas diárias e 15% cinco horas por dia) e para servir de fonte de receitas ao corpo docente, que sobrevive com baixos salários. "O teletrabalho está cada vez mais presente nos países desenvolvidos e, levando-se em conta a crise de emprego na Argentina, a modalidade poderá ser uma geradora de oportunidades", esclareceu.

A capacitação do pessoal inclui noções técnicas sobre equipamentos e programas de computadores. "Um teletrabalhador deve ser capaz de resolver problemas e tomar decisões", detalhou. No teletrabalho, os alunos ficam sob a responsabilidade do centro, que atua como tutor", esclareceu. O CTT também faz a disseminação da modalidade entre as empresas.

O modelo ganhou o reconhecimento de entidades como a Unesco, que vem concedendo bolsas de estudos (incluindo despesas com materiais, professores, educadores a distância e tutoria on line) para a formação de teletrabalhadores que necessitam de uma formação mais abrangente. Já foram beneficiadas 250 pessoas. Sonia adiantou que a "ajuda" poderá vir no próximo ano de entidades brasileiras, com cursos de capacitação pela Internet.


Liberdade de expressão

O teletrabalho no Grupo Semco (formado por 11 empresas nas áreas de equipamentos industriais, serviços e tecnologia) é conseqüência da transformação organizacional implantada a partir de 1980 pelo empresário Ricardo Semler. Prevê, entre outras coisas, a eliminação do controle sobre as pessoas. Ou seja, elas são responsabilizadas apenas pelos resultados e não pelo horário ou metódo de trabalho. Resultado: muitos passaram a trabalhar em casa. Hoje, formam um batalhão de cerca de 400 teletrabalhadores.

Neusa Borjikian"A transformação organizacional na Semco deu certo porque a gestão é participativa", destacou a administradora Neusa Borjikian, que analisou a empresa por meio de uma pesquisa. Ela constatou que o segredo está na liberdade de expressão e no compartilhamento das idéias. "Essa liberdade torna as pessoas co-responsáveis e mais ponderadas, contribuindo para a eficácia da gestão da mudança, que é contínua", esclareceu.

Para Neusa, quando se está comprometido com o resultado o estresse é permanente. Para diminuí-lo e, conseqüentemente, aumentar a qualidade de vida, a empresa não se importa se o colaborador está em uma casa de praia ou no cinema em plena quarta-feira à tarde. O que interessa é o resultado final", concluiu.


Questão de clima?

Wendy SpinksPor que a maioria das pesquisas sobre teletrabalho é oriunda dos países anglo-saxões e nórdicos? Para a professora australiana Wendy Spinks, da Universidade de Ciências de Tóquio (Japão) e presidente da Sociedade Japonesa de Teletrabalho, a resposta não tem nada a ver com o frio, já que ele faz parte da vida daqueles habitantes. "É uma questão de mentalidade, não de clima ou de tecnologia. Eles descobriram que podem trabalhar em qualquer lugar em que estiverem. Essa mentalidade ainda não foi incorporada pelos latinos", esclareceu.

Wendy é uma das articuladoras da Academia Internacional de Teletrabalho (The International Telework Academy - ITA), entidade que sucederá a Fundação Internacional de Teletrabalho (ITF). "O ITF foi criado para fazer o Telework. Como a qualidade dos trabalhos vem caindo e, também, diante da necessidade de envolvimento com a comunidade acadêmica virtual e a de pesquisadores, optou-se pela fundação de uma nova instituição (ITA)", esclareceu, ao dizer que os workhops continuarão sendo realizados.


As palestras e os autores

  • Activities of Telework Promotion in Japan 1993/2003 - Norimasa Yoshida/Schinichiro Tagawa (Japão)
  • Modern Technologies in Telecommunication - Júlio César Dal Bello (Brasil)
  • An analysis of the 2002 Japanese Telework - Sakamoto, Spinks e Shozugawa (Japão)
  • Novos Paradigmas nas Empresas: a Força do Trabalho Distribuída e o Teletrabalho - Francisco de Assis Gonçalves e Álvaro Mello (Brasil)
  • Aspecto Legal e-Commerce de Servicios - Magdelene Stella Maris Pueyrredon (Argentina)
  • Projeto de Inclusão Digital Empresarial - Jairo Martins, da Siemens (Brasil)
  • O Teletrabalhador - Alberto Trope (Brasil)
  • As Tecnologias Auxiliares ao Teletrabalho e as Aplicações - Mauro de Lima Coimbra (Brasil)
  • Trabajando com equipos virtuales - La experiência de Associacion Argentina del Teletrabajo - Angélica Abdallah Garcia (Argentina)
  • A Controvérsia do Teletrabalho - Ana Beatriz Benites Manssour (Brasil)
  • Un Centro de Teletrabajo en la Universidad - Sônia Boiarov (Argentina)
  • Um Complexo Empresarial Oferecendo Soluções Otimizadas - Otávio Soares de Carvalho (Brasil)
  • Vision Legal Práctica del Teletrabajo - Maria Teresa Rivarola (Argentina)
  • Teletrabalho - Simone Basile (Brasil)
  • Ways of Building Trust in E-Work - Shimozaki Chiyoko (Japão)
  • Estratégias da Mobilidade Paulistana - Rogério Belda (Brasil)
  • Virtual Citzen Service Agency - Everardo Lima Sampaio Filho (Brasil)
  • Aspectos Legales del Teletrabajo - Renée Muchen (Argentina)
  • 100% Mobile - Augusto Gaspar (Brasil)
  • A Study on Teleworking in a University Setting - Abdul Azeez Kadar Hamsa (Malásia)
  • Como Pesquisar e Resolver Sozinho - José Antônio Rosa (Brasil)
  • Business Case: An Outbound Call Center - Gustavo Denicolay e Maria Sol Irastorza (Argentina)
  • Teletrabalho e as Implicações nas Relações Sociais dos Indivíduos - Ronaldo André Rodrigues da Silva (Brasil)
  • E-Government-Developong e Solutions and Calculating Impacts - Andersson Karl-Erik (Suécia)
  • Impactos Psicossociais do Teletrabalho - Sandra Maria Mota Lima (Brasil)
  • The balancing act of managing virtual working in knowledge-intensive organizations - Lefkada Papacharalambous e Diana Limburg (Holanda)
  • O Teletrabalho no Grupo Semco - Álvaro Mello, Neusa Bojikian e Amyra Sarsu (Brasil)
  • Herramientas y Recursos para Teletrabajar - Marcos César Pueryredon (Argentina)
  • Aspectos Jurídicos do Teletrabalho -Vilma Toshie Kutomi (Brasil)
  • O E-learning e o Teletrabalho - Francisco Soeltl (Brasil)
  • Regulating Knowledge - Intensive Work - Hannu Mikkola/Reima Suomi (Finlândia)
  • Telework and the Perception of Time - Beverly Leeds (Inglaterra)
  • The Strategic Management of Telework - Benjamin Swalens e Viviane Illegems (Bélgica)
  • The Young Entrepreneur of Public School - Carlos Aquiles A. Siqueira (Brasil)
  • Construindo um Portal Via Teletrabalho - Valmir de Oliveira Feltrin (Brasil)
  • Would you like chips with that? - Owen Leeds (Inglaterra)