:: Jornal Administrador Profissional -nº 248 - Fevereiro 2007

Trabalhador brasileiro não se compromete com o que faz

Os profissionais com mais de 50 anos de idade são os mais engajados. A explicação está nas dificuldades que têm para encontrar uma nova colocação

O trabalhador brasileiro é leal com a empresa, está disposto a melhorar o desempenho, tem idéias criativas e chega a se entusiasmar com o sucesso do negócio. No entanto, a maioria não está comprometida com o trabalho. É o que revela uma pesquisa realizada pelo The Gallup Organization com 1.012 funcionários, em 11 capitais brasileiras.
De acordo com a pesquisa, 79% dos trabalhadores brasileiros estão nesta situação; outros 18% estão “ativamente desengajados”, ou seja, são os que faltam costumeiramente, se encarregam de disseminar o pessimismo entre os colegas e de destruir os valores por eles criados. “Os ativamente desengajados estão presentes fisicamente e não psicologicamente”, declarou Gustavo Oliveira, diretor geral da Gallup no Brasil, ao jornal paulistano “Valor Econômico”, ao ressaltar que talvez fosse melhor as empresas pagarem essas pessoas para ficarem em casa, principalmente se tiverem contato com clientes.
O estudo brasileiro teve como base pesquisa mundial realizada pelo mesmo instituto, com um milhão de trabalhadores, que identificou 12 questões para captar o nível de comprometimento dos funcionários com as empresas.
Os norte-americanos são os trabalhadores mais engajados (28%), segundo a pesquisa. Os chilenos aparecem a seguir, com 25%. O Brasil não está tão distante: tem 21% nesta condição, bem acima de países como França e Alemanha, onde os percentuais são 12% e 13%, respectivamente.

Chefes

De acordo com o estudo, um dos motivos apontados para o desengajamento é a falta de habilidade dos chefes imediatos na gestão de pessoas. Outro dado que preocupa mostra que 19% dos gerentes ou supervisores fazem parte do grupo dos “ativamente desengajados”. “Um gerente com essa característica tem um poder de destruição muito grande”, enfatizou Oliveira.
Para 51% dos desengajados, o pessimismo é total. Nunca estão satisfeitos. Para eles, a situação econômica do País está sempre ruim; 21% acreditam que a situação financeira das empresas nunca é favorável.

A remuneração faz a dirença


O que diferencia os engajados dos não engajados, que realizam as tarefas corretamente, mas que não são apaixonados pelo que fazem, é a remuneração. Cerca de 55% dos mais comprometidos acreditam receber salários adequados e 66% valorizam a satisfação pessoal ou profissional. “Eles estão dispostos a receber menos, pois seu trabalho é reconhecido de várias formas”, declarou. Os outros, é claro, querem mais salário.
O engajamento brasileiro dos profissionais mais jovens, segundo o estudo, difere dos resultados mundiais. Apenas 16% dos profissionais com idades entre 18 e 29 anos são “ativamente desengajados”. Para Oliveira, a explicação pode estar relacionada com a situação econômica do País. “2006 foi um ano de baixo crescimento econômico, o que trouxe pouca movimentação para as empresas”, ressaltou.
No Brasil, os profissionais mais comprometidos com o trabalho são os que têm mais de 50 anos de idade. O engajamento chega a 38%, um reflexo das dificuldades para se recolocarem no mercado de trabalho.

Satisfação

Com forte conseqüência econômica para as empresas, a falta de engajamento no trabalho pode ser mensurada por meio de: índice de absenteísmo; turnover (rotatividade de pessoal); grau de satisfação dos clientes; lucratividade, produtividade e perdas ocasionadas por descuido; e furto ou acidentes.
Para Oliveira, o engajamento está ligado à oportunidade de crescimento profissional. “Os mais engajados são mais satisfeitos com a vida””, declarou.
Não foi à toa, portanto, que mais de 50% dos engajados, segundo a pesquisa, dizem possuir as coisas que consideram mais importantes na vida.