Primeiro o pobre paga a padaria. Depois o banco Teoria de Yunus, de que o pobre é um bom pagador, começa a deixar de ser verdade no Brasil Em 1974, após retornar dos Estados Unidos onde tornou-se PhD em Economia pela Universidade de Vanderbilt, Muhammad Yunus passou a lecionar Economia na Universidade de Chittagong, segunda maior cidade de Bangladesh, país de 130 milhões de pessoas distribuídas numa área de 140 mil km² (quase do tamanho do Estado do Amapá). Porém, a desilusão com as teorias econômicas o fez refletir sobre como poderia fazer para melhorar a vida das pessoas incrivelmente pobres daquele país. “As teorias não refletiam a realidade e tive vontade de aprender sobre o mundo real das pessoas reais”, afirmou. Tarefa complexa A iniciativa de Yunus não só lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz no ano passado como disseminou, em todo o mundo, de que o pobre é um bom pagador. Os defensores dessa tese acreditam que quanto menor é a renda do devedor, maior é o esforço que ele faz para “manter-se limpo” na praça. Porém, se a teoria é bela, a prática tem mostrado um caminho bastante diferente no Brasil. Nos últimos anos, várias instituições financeiras do País decidiram apostar na concessão de empréstimos para a população de baixa renda. Mas, ao contrário do que Yunus prega, os resultados mostram que é uma tarefa complexa. “O pobre primeiro paga a padaria da esquina, a farmácia, o amigo e só depois o banco”, afirma Odair Rebelato, diretor executivo do Bradesco. Concorrência acirrada Nas ruas de comércio popular de São Paulo, como a 25 de março, é comum encontrar dez financeiras dos bancos próximas uma da outra. Para garantir participação de mercado, são obrigadas a reduzir juros e a tornarem-se menos criteriosa na hora de emprestar, algumas, como no modelo de Yunus, sem exigir garantias. Isso provocou uma farta distribuição de crédito. Nos dois últimos anos, por exemplo, o volume de empréstimos pessoais aumentou 72%. Em países com juros baixos o excesso de distribuição de dinheiro não traria grandes conseqüências. No Brasil, porém, com juros superiores a 12% ao mês, o risco de calote é dez vezes maior do que na Europa e até mesmo em países emergentes, como a Índia. Exigências Para se garantirem, os bancos estão revisando seus modelos de financiamento. O Bradesco deixou de conceder empréstimos a clientes que estão com 30% da renda comprometida com outros financiamentos. O Panamericano passou a exigir comprovação de renda e vínculo empregatício de pelo menos um ano. A exigência do Unibanco é que o cliente tenha um histórico positivo com a instituição.
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